14 de outubro de 2014

Não existe mais do que a conjunção do escuro com o silêncio endurecedor, quando regresso a casa. Coloco a chave à porta e não há nada que me puxe para dentro. O vazio daquilo que chamam de lar atormenta-me o engenho de tal forma que hesito em entrar. Por momentos, por breves momentos, troco o silêncio e a quietude da minha zona de conforto por uma qualquer avenida cheia de pessoas apressadas e com vontade, imensa vontade!, de regressar a casa. Querem tanto regressar, anseiam exageradamente pelo momento em que trocam as lamurias pelo real aconchego... É, talvez seja porque não têm que lidar com toda esta solidão que me assombra. Não há abraços, nem tão pouco o jantar servido na mesa, quando eu entro porta dentro... Seja que horas forem. São raros, raríssimos, os dias em que respondo à questão "como correu o teu dia hoje?"; são raros, raríssimos, os dias em que alguém se lembra de me perguntar isso. Com o tempo, todos nós vamos aprendendo a não esperar nada de ninguém. É mais fácil se não criarmos expectativas, se não pensarmos naquilo que gostávamos que os outros fizessem por nós... Contudo, é inevitável. Chega o dia em que tudo cai por terra e apenas um abraço nos podia confortar. Porque custa. Custa não ter uma família dita normal, custa não viver num ambiente familiar normal. Custa. Mas habituamo-nos e, com o tempo, é só mais um dia. Agora, resta-me ir fazer o meu chá, aconchegar-me na cama e ler o meu livro. Resta-me aninhar-me junto do meu gato e esperar que a minha mãe regresse a casa e me dê o seu sorriso... Por mais pequeno que seja, será sempre o seu sorriso.

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